Followers

Conheça a história das damas de aço

11 out, 2017
143 Shares 1201 Views

O ano era o de 1552. Na secular cidade de Nápoles, atual Itália, então sob domínio do Império Espanhol, um triângulo amoroso estava prestes a entrar para a história. Oriundas da mais fina nata da sociedade napolitana, duas belas jovens da nobreza, Isabella de Carazi e Diambra de Petinella, descobriram que amavam o mesmo homem, Fabio de Zeresola. Decididas a não abrir mão do rapaz, elegeram o duelo de espadas para resolver a disputa.

Isso contrariava a imagem de serena passividade que se esperava delas na época, as duas mulheres partiram para uma luta sangrenta. Sequer trocaram as finas túnicas coloridas e as delicadas sandálias de couro. Na presença de ninguém menos do que o vice-rei espanhol, Marqués del Vasto, empunharam suas rapieiras de cerca de 1,25 quilo e pouco mais de 1 metro de comprimento e começaram as estocadas. Não houve trégua nem piedade. Com ferimentos em ambos os lados, o duelo só terminou com a morte de uma delas – Isabella. O evento foi tão comentado na corte que inspirou o pintor valenciano José de Ribeira, mais conhecido como El Españoleto (“O Espanholzinho”), a pintar o quadro Duelo de Mulheres, imortalizando a cena.

Diambra e Isabella eram crias da idade de ouro dos duelos. Apesar de oficialmente ilegais, foram práticas cotidianas entre os séculos 13 e 17 nas classes mais abastadas de países como França, Inglaterra, Alemanha, Espanha e Rússia. E, ao contrário do que se possa imaginar ao ver representações de damas com vestidos rebuscados e mãos suavemente pousadas no colo em pose de contemplação, os duelos femininos pipocavam por toda a Europa para provar que o “sexo frágil” não era tão indefeso assim.

Participar de um duelo não exigia só habilidade. Era preciso conhecer as regras: a parte ofendida devia desafiar a ofensora, esbofeteando o adversário com uma luva. O segundo passo era crucial: definir um padrinho (ou madrinha, no caso das mulheres) para cada duelista. Os padrinhos coordenavam a parte operacional do evento. Ou seja: determinar o local do duelo, que tradicionalmente começava ao pôr-do-sol e devia ser o mais isolado possível, verificar as armas e não raro até duelar entre si se a coisa esquentasse.

Dependendo da ofensa, os duelos terminavam quando fosse derramada a primeira gota de sangue, quando um dos oponentes ficasse ferido e sem condições físicas de continuar a lutar ou, claro, quando alguém morresse. No caso de duelo de pistolas, os padrinhos definiam quantos tiros poderiam ser disparados e a quantos passos de distância.

A forte conexão da espada como símbolo de justiça, honra e poder levou ao surgimento de torneios em 1135 na Inglaterra. E as mulheres não ficaram de fora dessa moda. Mesmo escondidas, aprendiam e participavam das competições.

Há relatos, datados de 1348, do aparecimento de grupos com até 50 mulheres britânicas, sempre solteiras, algumas lindíssimas e todas vestidas como homens, que não só competiam como não raro ganhavam. “Adquirir uma espada exigia uma situação financeira bem abastada, algo impensável para alguém do povo ou até para o soldado comum. Daí enraizou-se a ideia de que a esgrima é um esporte de esnobes. Os duelos mostravam o status social de quem os praticava”, diz Christina Baulch, autora da tese Women, Gender and Fencing (“Mulheres, Questões de Gênero e Esgrima”). Aliás, a espada era algo tão precioso que tinha suas próprias etiquetas. Por exemplo: não podia ser desembainhada à toa e sua lâmina nunca poderia tocar o chão. Como só os nobres e cavaleiros a empunhavam, sua imagem associou-se a uma série de qualidades místicas, que acabavam por refletir o valor de um homem de acordo com o código europeu de honra. O efeito moral era tamanho que poucos júris, em especial os ingleses e franceses, condenavam duelistas, apesar do veto à prática em ambos os países.

A possibilidade de perdão extra-oficial, no entanto, não era suficiente para fazer as esgrimistas assumirem a identidade feminina em duelos e competições. Por conta do preconceito, exímias duelistas laçavam mão dos disfarces para poderem lutar. Viúva e jovem, a dama inglesa Mary Bingham, por exemplo, viu-se obrigada a defender sua propriedade e honra da cobiça de um tenente britânico no século 17. Vendo seus pedidos ignorados, travestiu-se de homem e desafiou o incauto militar para um duelo, fingindo ser o pai da senhorita ameaçada. No dia e hora combinados, além de vencer o oponente, desarmou o jovem inglês, revelando sua identidade e complementando a humilhação do moço com as seguintes palavras: “Por favor lembre-se: quando uma mulher diz não, é não mesmo”.

Um detalhe interessante é que as donzelas não usavam armas diferentes dos homens, até porque seria impensável forjar uma espada para mulheres, já que elas – em tese – não lutavam. “As espadas da Renascença não eram pesadíssimas como se imagina. Essa ideia de que pesavam 8 quilos, 10 quilos, 20 quilos é totalmente equivocada. Nos duelos, seguramente o peso máximo não ultrapassava a 2 quilos”, diz John Clements, diretor da Arma (sigla em inglês para Associação de Artes Marciais da Renascença). Outra peculiaridade da participação das mulheres nas lutas de espada é que elas eram mais mortais do que os homens. “Sabemos que entre 1589 e 1610, apenas na França, a capital dos duelos, mais de 10 mil pessoas morreram desta forma. Considerando que nos duelos femininos oito de cada dez terminavam em morte, enquanto que nos masculinos esta média caía para quatro, não é irreal afirmar que entre 200 e 500 dessas baixas eram de mulheres”, diz Suzanne Cherrin, professora da Universidade de Delaware, nos Estados Unidos, e especialista em Estudos Femininos.

Além de mais letais, as mulheres também eram mais cruéis. Menos afeitas a seguir as rígidas regras impostas pelo chamado “duelo de cavalheiros”, a moda entre as damas de espada era desfigurar o rosto da adversária. Isso porque uma cicatriz no rosto podia ser mais mortal para uma mulher do que a própria morte. “Os duelos femininos eram conhecidos por serem bem mais cruéis e impiedosos do que os masculinos. Nas lutas de espadas, elas costumavam untar as pontas das lâminas com substâncias que faziam cortes mais profundos e que infeccionavam na hora”, diz Cherrin. Não era só isso: as oponentes miravam exatamente os pontos que deixavam as piores deformidades.

Como acontecia com todas as modas europeias, os duelos femininos também chegaram à Rússia, só que de uma forma inusitada.-Como é de se esperar da Rússia-. Aos 15 anos, a princesa alemã Sophia Augusta Frederika Von Anhalt-Zerbst foi desafiada para um duelo de espadas por sua prima, Anna Ludwig Anhalt, da mesma idade. O motivo da briga perdeu-se no tempo, mas uma coisa é certa: se o duelo entre as adolescentes tivesse tido um final trágico, o mundo não viria a conhecer Sophia pelo nome que a imortalizou: Catarina, a Grande, a mais famosa tsarina russa. Sua escalada ao poder, em 1762, levou o embate feminino para o país que a adotou. Defensora dos direitos femininos, Catarina foi madrinha de vários duelos. “Só no ano de 1765 foram documentados mais de 20 duelos femininos na Rússia, isso considerando que os registros eram bastante irregulares e quase inexistentes fora das grandes cidades como São Petersburgo”, analisa Nina Alekceevna Ivanitskaia, especialista em História Russa da Universidade de Moscou. “Desses 20 duelos, a própria Catarina figurava como madrinha em oito.”

O reinado das espadas deixou de ser absoluto com a chegada das armas de fogo. Apesar dos primeiros registros de seu uso datarem de 1346, caíram no uso popular no século 16. E, na França do século 17, um duelo de pistolas entre duas damas entrou para a história. A condessa de Polignac desafiou a marquesa de Nesle. O motivo: o conde de Boulogne, amante de ambas. No pôr-do-sol as duas mulheres encontraram-se no bosque de Boulogne, em Paris, para o confronto mortal. Sem abrir mão dos babados, das amplas saias de tecidos nobres ou das cinturinhas de pilão mantidas à custa de espartilhos, elas concordaram com uma regra: a vencedora ficaria com o conde. Após o soar do primeiro tiro, apenas uma permaneceu de pé. Desfalecida, a marquesa de Nesle sangrava em abundância. Exultante, a condessa de Polignac conclamava a rival caída a levantar-se para terminar de sofrer as consequências de lhe roubar o amante. Um espectador ultrajado levantou a voz e pediu moderação nas palavras cruéis da dama. “Silêncio, jovem tolo. Não lhe cabe me dizer o que fazer”, foi a resposta da condessa, que saiu de cena vitoriosa. Ficou com seu conde, mesmo quando descobriu-se mais tarde que a marquesa havia sido apenas ferida no ombro. O duelo foi tão falado na época que atravessou fronteiras e chegou a ser publicado muito depois, em 1825, no antigo tabloide inglês The Terrific Register.

A febre dos duelos – de espada ou de pistolas – caiu em desuso em toda a Europa após 1918, com o fim da Primeira Guerra Mundial e a mortandade que a acompanhou. A crescente onda feminista, em ascensão desde o século 19, acabou também tirando o interesse das mulheres pelo embate, já que surgiam aos poucos novas atividades antes impensáveis onde podiam testar suas habilidades. A herança desses tempos, contudo, permanece. Elas, que eram proibidas pelos gregos até de assistir aos Jogos Olímpicos sob pena de morte, estrearam como esgrimistas olímpicas em 1924, mostrando que sempre estiveram no aguardo.

Via:Aventuras na História – UOL

Os comentários são via Facebook, e é preciso estar logado para comentar. Os comentários são inteiramente de sua responsabilidade. Você será banido caso comente algo racista, incite o ódio gratuito ou poste spam.